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EM DIA COM A FÉ

Como posso calar minha voz?

29 Agosto 2016 19:07:53

O que um médico congolês, uma menina muçulmana e uma missionária palestina tem em comum?

Alisson Magalhães, Pastor da Igreja do Nazareno, jornalista e publicitário
Em dia com a Fé
Foto: Correio Otaciliense

Olhar para a história e suas reviravoltas ao longo dos anos é um exercício prazeroso. Ao analisar as centenas de anos de história conhecida, quando aproximamos nossas lupas das grandes mudanças e dos grandes acontecimentos, sempre vemos algo em comum: Uma voz. De forma invariável, sempre há, no centro das grandes controvérsias alguém que, de alguma maneira, tomou a decisão de não se conformar com o status quo, e decidiu fazer a diferença na sua sociedade.

Um desses homens é Denis Mukwege, ganhador do prêmio Sakharov de 2014, conferido pela Eurocâmara. Em seu discurso, por ocasião da premiação, a frase que mais chama a atenção e se destaca toma forma numa pergunta: “Como posso calar a minha voz”? O Dr. Dênis é um ginecologista que ganhou o prêmio pelos seus esforços em denunciar crimes de guerra contra a humanidade no Congo, onde mulheres de qualquer idade são raptadas e estupradas como estratégia de guerra. Apenas partes do seu discurso são suficientes para dilacerar nosso coração:

“…o corpo da mulher é transformado num verdadeiro campo de batalha. (…)Em cada mulher violada vejo a minha mulher, em cada mãe violada vejo a minha mãe. Em cada criança violada vejo os meus próprios filhos. Como posso calar a minha voz? “.

“Como é que conseguimos dormir tranquilos quando nos entregam um bebê de seis meses com a vagina destruída pela penetração brutal de um adulto, por objetos ou produtos químicos? Gostaria de não ter de falar mais destes crimes horrorosos de que são vítimas as minhas contemporâneas. Mas como posso calar a minha voz quando sabemos que estes crimes contra a humanidade são planejados por razões econômicas”?

 

Dênis é o terceiro de nove filhos de um casal de pastores Pentecostais, e resolveu estudar medicina porque queria poder curar aquelas mulheres pelas quais seu Pai só podia orar, e orava. Ele decidiu que queria fazer a diferença num mundo de indiferença, e fez daquelas mulheres sua missão pessoal de vida.

Há um tempo atrás foi veiculado no Brasil um comercial de TV que revelava um fato que nos traz esperança por um lado e desalento pelo outro. Mais do que isso, o comercial, sem querer, chamava a atenção para um problema crônico em nossa sociedade atual: Não temos uma voz. O Comercial destacava os discursos de Marthin Luther King e usava a imagem de Mahatma Gandhi para depois mostrar como algumas crianças estão assumindo um papel vago na sociedade atual.

A pergunta, obviamente, me levou a outra. Onde está o amor que a igreja tanto prega e diz possuir? O que os cristãos estão fazendo para se tornar a fagulha que Deus precisa para incendiar um processo de mudança? Será que pessoas comuns como nós podem se tornar a voz que pode incendiar um processo de renovação desta nação ou desta cidade? 

Onde está nossa voz? Somos um país de cristãos, independente da denominação religiosa ou até mesmo da matriz teológica que seguimos. Seja você católico, protestante tradicional ou pentecostal, todos confessamos pertencer a uma mesma fé fundamental, baseada no cristianismo.

Vejo teólogos (ou pseudo-teólogos) rápidos em criar definições e formar frases de efeito, em criar mecanismos filosóficos de pensamento que deixariam Platão maravilhado, mas que não conseguem estender a mão para o necessitado que dorme na casa ao lado. Quando não são teólogos, são cristãos comuns que se engalfinham em discussões sobre qual denominação é melhor, buscando a qualquer custo explicações para argumentar que sua igreja é a correta. E, enquanto nossa teologia se infesta de vozes barulhentas a favor do próprio ego, o mundo carece de vozes que possam usar como referência no sentido de tentar descobrir o que é amor. É interessante como sabemos diagnosticar a falta de amor que caracteriza nosso mundo, mas não conseguimos mostrar ao mundo o que é amor. Nossa teologia define muito bem o amor, mas é incapaz de amar.

Enquanto isso, vejo uma Rosa Parks, que simplesmente se cansou de ter que sentar no último banco do ônibus porque era negra e, em 01 de Dezembro de 1955, se recusou a ceder seu lugar no ônibus para um branco. Sua recusa foi o estopim de um movimento que foi chamado de boicote aos autocarros de Montgomery e fez com que um jovem pastor negro começasse a introduzir em seus sermões ingredientes que iniciaram o movimento dos direitos civis dos negros norte-americanos. O jovem pastor? Marthin Luther King Jr.

Vejo um Nelson Mandela, que se recusou a se fazer de vítima do sistema e provou, com sua vida, que é possível derrotar um regime totalitário com nada mais que amor e perdão. Vejo uma Malala Yousafzai, que encarou sozinha um regime para, pasmem, ter o direito de estudar. Vejo uma Anjezë Bojaxhiu, filha de pais palestinos, que foi à Índia como missionária a serviço do Instituto Beatíssima Virgem Maria. Lá, ela fundou a casa da Esperança e, a despeito da fé “diferente” dos nativos, todos viram um amor tão grande que começaram a lhe ajudar independentemente da sua “outra” fé. Alguma vez você já ouviu falar de uma missionária cristã que recebia sustento de Hindus, Muçulmanos e budistas? Anjesë foi essa missionária. E você a conhece, mas como Madre Teresa de Calcutá.

O Comercial que eu citei fazia um apelo no final: Siga novos líderes. Fico pensando envergonhado se nós, cristãos e pessoas de bem, não deveríamos ser esses novos líderes, mas então percebo que, enquanto nossas teologias forem maior que nossas ações, isso não vai acontecer. Só quando eu entender de fato que Deus não escreveu nenhum livro de teologia sistemática e não criou sistemas de pensamento religioso baseado em achismos fúteis e discussões pelo poder é que eu, talvez, comece a entender a verdadeira teologia. Quem deveria ser o líder admirado por seus filhos? Qual deveria ser a referência que eles devem seguir?

Sabe, o mais interessante é que aqueles que mais precisam sabem reconhecer a voz que devem seguir e, de fato, seguem. Durante a cerimônia de premiação de Dênis Mukwege, alguns congoleses assistiam nas tribunas e, ao fim da cerimônia, despediram-se do médico entoando uma canção: “Deus escolheu-te. Trabalha por ele com o teu coração, o teu espírito”.

Talvez a única maneira de me credenciar a ser essa voz que o mundo tanto busca é entender de uma vez por todas que a única teologia que realmente presta para um Deus de amor é a teologia que me tire do meu ego e me lance em direção ao outro. Que me faça ser mais do que um apelo por mudança e me transforme na mudança, pois enquanto nossas teologias forem maiores que nosso amor e nossas ações, nossa voz continuará abafada e rouca, escondida debaixo dos entulhos de nossa hipocrisia cega. Os maiores heróis e líderes que mudaram a história entenderam isso. Espero conseguir entender a tempo.

Alguém já disse que pior que o barulho dos maus é o silêncio dos bons. Não se cale. Decida ser a mudança que o mundo precisa. Seja uma voz.

 



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