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EM DIA COM A FÉ

Qual é o papel do cristão na cultura?

10 Setembro 2017 09:51:00

Alisson Magalhães, pastor, teólogo e jornalista

Uma das questões mais relevantes e polêmicas dentro da Igreja é o relacionamento entre o cristão e a cultura. 

É fato que igreja brasileira tem a antiga mania de demonizar tudo o que ela não entende e não consegue controlar, afinal de contas, é mais fácil proibir do que educar e ensinar o povo a ter senso crítico e maturidade para separar o que presta do que não presta.

Isso, de fato, sempre representou um desafio para a igreja, principalmente as mais tradicionais, afinal de contas, como o cristão pode viver os valores bíblicos quanto à família, trabalho, lazer, estudos inseridos na cultura em geral?

Sim, inseridos na realidade que cerca o mundo natural. Quero iniciar citando Paulo em Filipenses 2:15: “…para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis NO MEIO (OU ENTRE) de uma geração corrompida e perversa…”. Lembro também de Jesus que, quando orou pelos discípulos em João 17, pediu ao Pai “…não peço que os tires do mundo, mas que os guarde do mal”.

Jesus usa aqui a palavra grega “kosmos” que, entre outras coisas, significa o sistema de valores, crenças, práticas e a maneira de viver das pessoas sem Deus. A questão é que essa é a exata definição mais usada para definir o que seria cultura. Veja o que o dicionário Houaiss diz sobre cultura: “Conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social”. Parecido? Pois é.

O fato é que não existe cultura neutra. Ela [a cultura] sempre reflete a situação moral e espiritual das pessoas que a compõe, ou seja, quando você vive no mundo, você tem duas escolhas: Influenciar ou ser influenciado. Não há alternativa.

O fato é que, histórica e sociologicamente, toda cultura é resultado de uma mistura de coisas boas e ruins. As coisas boas decorrentes dos traços da imagem de Deus remanescentes no homem, e coisas pecaminosas, resultantes da depravação e corrupção dessa mesma imagem. Logo, toda cultura traz valores bons e valores pecaminosos, que acabam se refletindo na arte, música, literatura, cinema, costumes, legislação e em tudo mais que a compõe.

É inegável, dentro do ponto de vista bíblico, que há uma relação e a necessidade de uma clara posição do cristão em relação à cultura, e isso é claramente expresso pelos apóstolos. E a posição correta é que sempre devemos nos posicionar contrários a todo e qualquer tipo de expressão pecaminosa, pois o mundo (kosmos) – ou seja, a cultura (os sistemas de valores dos ímpios) – é inimigo de Deus. Aqui você pode ver I João 2:15-16; Tiago 4:4; Romanos 12:2.

Devemos destruir a cultura, então?

A resposta é NÃO. Mil vezes não. Não devemos destruir a cultura. Devemos influenciá-la. Veja, ao mesmo tempo em que a Bíblia traça um perfil negativo do mundo, ela admite que existem coisas boas na sociedade. Esse é o resultado da graça comum e da imagem de Deus no homem que, mesmo corrompida, ainda leva Deus a agir de maneira graciosa na humanidade. Independente de ser cristão ou não, Deus concede às pessoas capacidades e habilidades naturais para as artes ou para outras áreas específicas de atuação.

Os primeiros instrumentos musicais aparecem na Bíblia dentro da descendência de Caim – Um assassino – (Gn 4:21), assim como os primeiros ferreiros (4:22), fazedores de tendas e fazendeiros (4:20). O apóstolo Paulo conhecia e citou vários autores e filósofos de sua época (Ele citou Epimênides em Tito 1:12; Menander em 1 Co 15:32 e Aratus em At 17:28 – Para não falar em outros), mostrando o grande conhecimento cultural que possuía.

Jesus cita Platão em João 8:32, fazendo uma paráfrase ao Filósofo. Platão dizia, 300 anos antes de Cristo a frase: “O Conhecimento liberta”. Jesus o edita: “O Conhecimento – da verdade – liberta”. O Senhor ia a festas de casamento e se relacionava com aquilo que, segundo os sacerdotes da época, havia de pior em sua cultura, e por isso era difamado e odiado pelos fariseus.

A questão central não é a proibição, é aquela questão do limite. A questão principal é como podemos nos proteger da influência da cultura a fim de sermos nós os influenciadores? A fim de sermos nós a transformar a cultura que nos cerca?

O que precisamos entender, de uma vez por todas, é que quando temos (e precisamos) que protestar não é contra a cultura em si, mas sim contra o que aquela parte pecaminosa presente naquele aspecto cultural. Aquela parte ruim da qual falei acima.

Quando missionários tentam fazer com que índios parem de matar crianças, eles não querem acabar com a cultura indígena, querem redimi-la deste traço pecaminoso. Quando rechaçamos as teorias de Darwin com relação à Evolução das espécies, não estamos deixando de reconhecer sua contribuição para nossos conhecimentos atuais sobre os processos naturais, mas nos posicionando contra a filosofia naturalista que controlou suas pesquisas e sua linha de pensamento. Podemos gostar de Jorge Amado, mas abominamos suas inclinações para a pornografia. Podemos admirar os Sonetos e poesias, mas não aceitamos os cigarros e bebidas de Vinícius de Moraes.

O problema é que, quando demonizamos tudo que não está inserido em nossa “cultura evangélica”, acabamos marginalizando e antagonizando aqueles que deveriam ser o alvo da igreja. Perdemos a ponte de diálogo por transformar o que deveria ser um relacionamento num embate ideológico, e perdemos o direito de sermos ouvidos.

Qual é o caminho então?

Para variar, a lição, mais uma vez, está na história. Está num Lutero que, ao finalizar suas poesias, fazia uso de músicas populares (SECULARES) de sua época para lhe darem adornos musicais (Castelo Forte, o grande hino da Reforma Protestante, é o maior exemplo disso). Falei aqui de Jesus, que citou Platão, de Paulo, que citou filósofos de sua época, lembro aqui de C.S. Lewis e dos puritanos, que tinham um profundo apreço pela pintura, pela música, pela literatura e poesia de sua época, e se empenharam fortemente em impregnar na sua cultura os traços da imagem de Deus que eles conheciam mais do que os outros poetas, músicos e pintores. Lutero, por exemplo, não pregava e nem acreditava que a salvação era alcançada pela reforma da sociedade (como dizem os comunistas), mas cria profundamente que a sociedade podia ser reformada pelas ações do homem que Deus reformou.

O desafio que Jesus deixou para seus discípulos não envolve destruir a cultura. É o desafio de estar no mundo, mas não ser dele (João 17:14-18). O desafio é de não se conformar ao presente século, mas renovar-se diariamente, mesmo estando no presente século (Romanos 12:1-3). É o desafio de ser Luz no meio de uma geração corrompida (Fp 2:15).

Mas pastor, qual então é o nosso limite? Quero finalizar postando a definição de pecado mais linda que conheço, e que pode auxiliar o leitor a encontrar tal linha. É o que Suzana Wesley, mãe do avivalista John Wesley, ensinava a seus filhos. Ela dizia: “Tudo que enfraqueça tua razão, diminua a sensibilidade da tua consciência, obscureça tua percepção de Deus ou atenue teu gosto pelas coisas espirituais, tudo o que aumente a autoridade do teu corpo sobre a mente, essa coisa para ti será pecado”.

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