OTACÍLIO COSTA, PALMEIRA E REGIÃO | ASSINE & ANUNCIE

cab_gavazzoni.png
GAVAZZONI

O olho da rua

18 Agosto 2017 12:04:40

Antonio Gavazzoni, advogado e doutor em Direito Público

Ao parar no sinal de trânsito vejo o homem com o cartaz na mão: "Desempregado, mas na luta. Paçoquinha a R$ 1". No impulso compro algumas para ajudar e sigo meu caminho pensando na situação daquele homem, cuja idade deve emparelhar com a minha. Ele é só mais uma das tantas vítimas da crise - cuja pior face é, com certeza, o desemprego. 

Outra história me vem à mente: aquela contada recentemente na imprensa, do homem de 58 anos que passa os dias no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Ele é um catarinense, de Itajaí, que foi executivo de grandes empresas na cidade "maravilhosa". Desempregado, passou a bater ponto no terminal, utilizando durante o dia a internet, o banheiro e a água do local. À noite, sem opção, ia dormir na rua. A exposição na mídia acabou lhe rendendo abrigo e trabalho. 

Chegando ao meu destino, abro um jornal de grande circulação e leio que o número de moradores de rua na cidade do Rio de Janeiro cresceu 78% no início deste ano. No último balanço anual, em 2016, já eram quase 15 mil. Entre os personagens da reportagem temos um caminhoneiro da minha idade e um camelô com a esposa e um bebê de apenas 40 dias. O primeiro perdeu o emprego, gastou o parco dinheiro da rescisão para pagar um quartinho enquanto procurava trabalho. O dinheiro acabou e o emprego não apareceu. Já o camelô é uma vítima não só do desemprego, mas das drogas. Perdeu tudo, mas agora quer se recuperar e cuidar da filha. Ele vende guarda-chuvas e a esposa distribui folhetos. 

Um dos grupos humanitários que distribui comida aos desabrigados conta que há cinco anos eram entregues 80 refeições por noite. Hoje, 300 não dão conta. São grupos como esse que amenizam a triste situação experimentada por esses cidadãos. Muitas vezes, a refeição distribuída por eles é a única do dia. O que os move é a empatia: se colocar no lugar do outro. O trabalho deles me comove. 

Mas aí leio a parte mais chocante. Incomodados pelo contingente de sem teto, muitos comerciantes colocaram tapumes para impedir o acesso às marquises e instalaram chuveirinhos para molhar quem tentar se abrigar. As medidas foram aplaudidas por boa parte dos moradores dos bairros. 

No caso do Rio de Janeiro, existem pouco mais de duas mil vagas de acolhimento, quase todas ocupadas. Então qual a opção dessas pessoas? Claro que ninguém se sente bem em sair do seu prédio e topar com pessoas dormindo em frente, ou encontrá-las ao chegar em seu estabelecimento comercial. Mas expulsá-las de forma agressiva não é a solução. Ali estão seres humanos como nós, com a diferença de que não tiveram as mesmas oportunidades. Muitos têm carteira assinada, que fazem questão de mostrar. Outros, não tiveram nem mesmo a chance da alfabetização. Eles são fruto das nossas escolhas como sociedade. E agora, com a severidade da crise, não resta nem a famosa saída de colocar a culpa no governo. O governos abraçaram responsabilidades demais e, claro, não deram conta. Não adianta fechar os olhos, colocar tapumes, instalar chuveiros. O problema existe e nos cabe ajudar, como for possível. Nem que seja com uma palavra gentil, um olhar benevolente, ou comprando uma paçoca.



correiootaciliense




Brasileirão - Série A

Logo_CO_rodape.png


Endereço: Rua Aristeu Andrioli, 592 - B. Pinheiros - Otacílio Costa - SC
Email: correiootaciliense@gmail.com
Telefone: (49) 3275 0857

Copyright © 2011. Todos os direitos reservados | Correio Otaciliense