Era o que faltava! Agora apareceu um curso pra ser homem. Isso no país em que 4 mulheres são assassinadas por dia por serem do sexo feminino. O que uma coisa tem a ver com a outra?
Vários grupos de homens de todas as idades incentivam a violência contra meninas e mulheres, principalmente pela internet. Pregam a desumanização e a subordinação de mulheres e alimentam de discursos conservadores que incentivam outros homens a tratar mulheres como propriedade e ameaça. A eles são associados agressões, estupros e feminicídios. Se machistas violentos já agem sem incentivo, imagine-se com apoio de curso.
O ator Juliano Cazarré oferece vagas para um curso para grupos de homens com o sugestivo nome de ‘O Farol e a Forja’, para “fortalecer homens enfraquecidos”. Ele diz que os homens estão sendo atacados, perdendo o protagonismo, apanhando das mulheres... A fala de enfraquecimento masculino reforça estruturas machistas quando esquece a realidade da violência contra a mulher registrada a todo momento.
O projeto fala em “maior encontro de homens do Brasil”, com o lema “o mundo precisa de homens que assumam seu papel”. Propõe temas como liderança, masculinidade e espiritualidade. Quem pode fazer o curso? Homens que disponham de 5 mil reais e três dias para se encontrar e escutar o discurso para se tornarem... homens! Quem dará o curso? Alguém com total despreparo sobre os temas propostos.
Em entrevista na Globo News dia 12 de maio último Cazarré disse ser um homem religioso, do bem, que respeita, honra e apoia sua esposa. Ele fala em primeira pessoa: eu - mas como seu discurso será ouvido? Um palestrante que não tem estudo sobre os temas propostos falará a um ou mais grupos de homens que farão livre interpretação e podem se sentir fortalecidos em atitudes machistas.
E o machismo mata: em 2025 o Brasil registrou 1568 feminicídios, 80% praticados por maridos ou ex-companheiros. Cazarré afirmou que crime passional não pode ser confundido com feminicídio e que no Brasil mais homens foram mortos por mulheres do que o contrário. Diante dessas falas foi lembrado de que “crime passional” não existe mais como um tipo penal específico, e é considerado homicídio. Como assim, justificar crime por ciúmes ou paixão?
Comparar feminicídio com o número geral de homens mortos, que inclui disputas armadas, violência urbana, conflitos entre facções, assaltos, confrontos policiais, brigas diversas e outras causas é fraude estatística. É manipulação de dado para produzir propaganda ideológica”, disse a escritora Giovana Stadnicki.
A psicanalista Vera Iaconeli advertiu Cazarré que na mente do machista ciumento está: “Eu te odeio porque eu acho que o teu corpo me pertence e você não pode ter desejo independente do meu. Você não pode se separar de mim!” Um fato que ilustra isso aconteceu há pouco no interior do Ceará: uma mulher teve as mãos decepadas por ter se separado. Era pra matar, porque ela quis se separar de um homem violento e, no entendimento deste homem, ela devia morrer. “Quando pedimos ‘parem de nos matar!’, não dissemos para vocês deixarem de ser homens, mas sim ser um outro tipo de homem”, disse a psicanalista.
O “farol” do curso dará luz a quê? A “forja” moldará que tipo de homem? Quem se dispõe a fazer o curso não se sente homem o suficiente? O curso é inspirado no movimento Legendários, criado na Guatemala em 2015, em que grupos de homens saem em retiro por matas, montanhas e florestas para “fortalecer o papel masculino, devolvendo os heróis às suas famílias”, lembrando que o uso da fé e da religião dá um verniz de legitimação a esses encontros.
Deve ser prazeroso para esses sujeitos ficarem juntos sem nenhum compromisso com o resto do mundo, enquanto suas esposas lavam suas cuecas, limpam a casa, cozinham e cuidam dos filhos sozinhas. Mais e melhores homens seriam se estivessem participando das tarefas e do convívio familiar como companheiros de verdade – vivendo juntos também os momentos de descanso e lazer.
Honestos seriam se fizessem cursos para casais, pois existe uma forte dissonância entre o que homens fazem e ouvem no cursinho só para eles e como suas famílias receberão as consequências disso.
As falas de Cazarré no “curso de macho alfa” reforçam estereótipos machistas e estruturas de opressão contra as mulheres. É um reforço perigoso, principalmente quando usa a fé, assim como nos Legendários. A partir disso, os cursistas ficam crédulos num ideal familiar que tem que dar certo quando voltarem para casa. Se não der...
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