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AFINAL, PARA QUE SERVEM OS PARTIDOS POLÍTICOS? (PARTE 2)

Coluna publicada na edição impressa do dia 24 de setembro de 2026

A democracia precisa de partidos capazes de dialogar entre si. Mas a democracia também precisa de coerência, porque as referências partidárias desaparecem quando todos podem estar com todos, dependendo apenas das circunstâncias e conveniências pessoais. Com isso, o eleitor deixa de escolher entre projetos políticos e, sem sucesso, tenta entender quem está com quem a cada eleição. Talvez seja exatamente essa a perplexidade que muita gente sente diante da política brasileira:  as siglas continuam existindo, mas é cada vez mais difícil descobrir o que elas significam.


E SE ISSO OCORRESSE NUM FORMIGUEIRO?

Imagino o que ocorreria se as formigas de determinado formigueiro adotassem o nosso sistema político-partidário... Durante certo tempo, um grupo de formigas defenderia que, dentro do formigueiro, o alimento deveria ser transportado pela trilha da direita; outro, defenderia que o melhor era pela esquerda. De repente, algumas formigas da direita fariam uma aliança com algumas da esquerda para escolher a nova rainha, mas não se acertariam em relação à melhor trilha, nem quanto ao comando do estoque de alimentos, controlado por outro grupo, que se intitularia como ´centrão´ e que havia sido afastado do controle do tráfego interno. Neste setor, aliás, já haveria mais uns três grupos de formigas dispostas a vender apoio em troca do direito de cobrar pedágio em alguns carreiros externos de transporte das folhas. As formigas carregadeiras, coitadas, a essas alturas não teriam a menor ideia para onde deveriam transportar suas cargas, porque até entre elas já haveria uma série de subdivisões com interesses múltiplos. Provavelmente, este formigueiro não duraria muito.


Na vida real, as formigas levam uma vantagem em relação a nós, porque elas não escrevem programas partidários, mas, pelo menos, sempre sabem para onde estão carregando suas folhas.

CAMPO FÉRTIL PARA CORRUPÇÃO

A fragmentação do sistema partidário torna complicado o sistema político. E no meio disso, o eleitor não consegue mais identificar diferenças entre os partidos e entre suas propostas de governo. De igual forma, a imagem que o partido deixa de produzir de si próprio muitas vezes ofusca o envolvimento de seus membros em casos de corrupção, o que pode explicar, em parte, o porquê de sua persistência, de forma tão intensa, na história política do Brasil, impactando profunda e negativamente no desenvolvimento socioeconômico. O pior é que, com partidos ideologicamente fragmentados, a produção de leis de combate à corrupção tem sido ineficaz, principalmente para efeito de punição dos agentes corruptos.


A corrupção facilitada por este frágil sistema político-partidário representa um grande custo para a democracia, levando-se em conta, também, que a absurda prática do financiamento público de campanhas tem proporcionado ações que configuram crimes milionários de lavagem e desvio de dinheiro, tráfico de influência e improbidade administrativa, comprometendo as tão sonhadas (e prometidas) políticas públicas de diminuição das desigualdades de renda e do aumento da oferta de empregos, fatores essenciais para uma vida mais digna a todos os brasileiros.


PAPEL DO ELEITOR QUANTO À CORRUPÇÃO

Com os partidos ideologicamente desgastados, milhões de eleitores se desinteressam em votar.  Deixam que outros decidam o que fazer com o país, facilitando, assim, a contínua eleição de políticos que, depois, participam ou dão aval a transações corruptas em todas as esferas do governo. O cidadão precisa se conscientizar de que está em suas mãos, através do voto, a oportunidade de ´punir´ comportamentos irregulares.


Se é tão fácil votar, chega a ser incompreensível o fato de milhares de cidadãos preferirem o passeio, um filme ou um churrasco com amigos no dia da eleição ao invés do exercício do voto consciente e responsável. Não pode – ou, pelo menos, não deveria – haver motivação maior do que aproveitar a oportunidade oferecida, num único dia, a cada dois anos, para o cidadão contribuir, com seu voto, para a escolha de políticos honestos e realmente interessados num futuro melhor para o país.

 

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