Coluna publicada na edição impressa do dia 17 de setembro de 2026
Em 1967 uma edição inteira da revista Realidade - com pesquisas e textos inéditos sobre o duro dia a dia da mulher brasileira - foi apreendida. Ela continha reportagens baseadas numa pesquisa nacional, abordando temas como família, sexo e casamento. Depoimentos corajosos formaram um retrato jamais visto antes sobre as mulheres no Brasil.
Apesar de que nos anos 1960 fossem publicadas reportagens que confrontavam tabus como a virgindade, a pílula anticoncepcional, o divórcio (que seria aprovado em 1977), mulher no futebol, regulamentação do trabalho feminino, entre outros, o conteúdo foi considerado obsceno e ofensivo por dois juízes, que ordenaram o recolhimento daquela edição.
Em seguida, os militares promulgaram a Lei de Imprensa, que dava ao governo o direito de censurar o que quisesse. Até o fim dos anos 1970 foram proibidos cerca de 500 filmes, 450 peças teatrais, 200 livros e 500 letras de música! Nesse ambiente, imagine-se qual a liberdade dada às vozes femininas, num tempo em que muitas mulheres eram tratadas como bibelôs domésticos.
Mas a voz de mulheres insatisfeitas e corajosas irrompeu em meio ao obscurantismo e todos os assuntos foram estudados e publicados: da economia à independência para realizar os sonhos, da ambição profissional à política, do bem-estar ao autocuidado, da transformação e significado da família.
Todas essas mudanças eram conhecidas por poucos no então distrito de Otacílio Costa. Emancipado em 1982, é um município pequeno e ainda jovem neste imenso Brasil de 500 anos. Faz apenas três décadas que votamos pelos nossos próprios prefeitos, vice-prefeitos e vereadores. As representes femininas surgiram e se consolidam, mesmo que em menor número que o de homens.
Agora, em 2026, temos um pleito eleitoral diferente e por que não dizer, extraordinário - pelo menos para nós, otacilienses: pela primeira vez temos duas candidaturas femininas locais para deputada. Ana Maris de Liz, 49 anos, lançou candidatura pela primeira vez e concorre a deputada estadual pelo Partido Democrático Trabalhista. Fernanda de Souza Cordova, 44 anos, lançou-se candidata a deputada federal pelo Partido Liberal, depois de ter sido vereadora e prefeita da vizinha cidade de Palmeira.
Advindas de municípios do interior, as candidaturas carregam a força de mulheres que não temem concorrer com uma maioria de candidatos homens e com nomes já reconhecidos de políticos homens e mulheres do estado de Santa Catarina. Elas mostram que a sensibilidade de ser esposas, mães, e, no caso de Ana Liz, avó; não está dissociada da coragem que as move na vontade política de fazer a diferença.
Em eleições não existem certezas antes do escrutínio final, o que torna a disputa pelos votos uma batalha muitas vezes inglória. Mas a coragem feminina não permite limitações, não teme obstáculos em caminhos que foram abertos muito antes por outras mulheres. À sua voz e valor, censura nunca mais!
As candidatas otacilienses surgem como flores raras num campo minado por adversidades e até intrigas palacianas deste ou daquele poder. Isso porque acreditam na ação em favor da política para a terra e a gente da qual fazem parte. Elas saem às ruas com bandeiras de cores diferentes, mas incluem todas as pessoas de uma comunidade na sensação de pertencimento.
Otacílio Costa se rende à competência das mulheres que buscam representação para sua terra. Se ações políticas passadas serviram de estímulo para nossas candidatas trilharem este caminho; tornam-se elas - candidatas a deputada estadual e a deputada federal – inspiração para homens e mulheres do presente e do futuro. Publique-se!
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