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A democracia do Caramelo: curtido por muitos, representado por ninguém

Tem uma cena que se repete em praticamente qualquer cidade do Brasil. Você está andando na rua, talvez saindo de um mercado, talvez só passando sem pressa, e ele aparece: o cachorro caramelo. Não é de ninguém, mas parece de todo mundo. Anda com desenvoltura, como se conhecesse cada esquina. Não ameaça, não incomoda. Pelo contrário: conquista. Alguém chama, ele vai. Alguém estende a mão, ele aceita. Às vezes ganha um pedaço de pão, às vezes um afago rápido, às vezes só um olhar simpático. Todo mundo gosta do cachorro caramelo. Mas quase ninguém leva ele pra casa. Ele segue ali. Livre, popular, querido, presente, mas, ao mesmo tempo, dispensável. Cena fofinha, né? Agora troque o cachorro pela política, e a metáfora deixa de ser engraçada.

Nos últimos anos, algo mudou na forma como nos relacionamos com a política. Não foi uma mudança pequena, foi uma transformação estrutural, silenciosa, e quase imperceptível. A política deixou de ser construída e passou a ser consumida. Antes, o eleitor acompanhava trajetórias, observava posicionamentos, avaliava coerência. Existia um processo, imperfeito, claro, mas ainda assim um processo de formação de escolha. Hoje, a lógica é outra. A política virou feed. Você abre o celular e lá estão eles: opiniões prontas, vídeos curtos, frases de efeito, cortes estratégicos, indignações instantâneas. Tudo rápido, tudo fácil, tudo pronto. Não é preciso esforço. Não é preciso contexto. Não é preciso pensar muito. O eleitor só precisa reagir. Curtir, compartilhar, comentar e seguir para o próximo.

É nesse ambiente que nasceu o político caramelo. Ele não precisa de base sólida, precisa de presença constante. Não precisa de profundidade, precisa de alcance. Não precisa de compromisso, precisa de engajamento. Ele comenta tudo, aparece em todas as pautas, está em todos os lugares. Não tem formação em nada, mas é especialista em tudo. Hoje ele fala de saúde, amanhã de segurança, depois de educação, depois de qualquer assunto que esteja no radar do momento. É acessível, simpático, presente. E exatamente por isso, superficial. Só que o problema não está nele. O problema está no ambiente que o premia e, principalmente, no comportamento do eleitor que o sustenta.

Porque vamos ser honestos: o eleitor também mudou. A gente passou a consumir política como consome qualquer outra coisa, de forma rápida, leve e descartável. A gente se acostumou a gostar sem aprofundar, a concordar sem entender, a reagir sem refletir. E isso tem um efeito colateral poderoso: passamos a valorizar quem aparece, e não quem realmente nos representa. Pode parecer só uma mudança de hábito, mas não é. É uma mudança de consequência.

Agora vamos sair da teoria e trazer isso para a realidade da Serra Catarinense. A região tem cerca de 234 mil eleitores. Não é pouca coisa. Não é irrelevante. É, em termos políticos, um volume suficiente para sustentar uma representação muito mais robusta do que aquela que historicamente conseguimos consolidar. Com organização, convergência e estratégia, a Serra poderia fortalecer uma bancada consistente na Assembleia Legislativa, disputar espaço real na Câmara Federal e ter voz ativa nas decisões estruturais do Estado. Isso não é fantasia. É potencial. E aqui está o ponto que incomoda: a gente não perde força política por falta de gente. Perde por mentalidade e falta de direção.

Enquanto o eleitor se dispersa entre dezenas de nomes no feed, noventa por cento deles sem qualquer vínculo com a região, surfando na onda do momento e construídos na lógica da visibilidade digital, o voto se fragmenta. E voto fragmentado não gera força. Gera irrelevância. Uma coisa que o eleitor da Serra precisa aprender: o sistema político não funciona com base em simpatia ou ideologia. Funciona com base em densidade eleitoral. Quem concentra e tem mais deputados, leva. Quem vota em gente de fora, assiste os recursos irem pra outras regiões. Simples assim.

O impacto disso aparece de forma silenciosa, mas concreta: menos representantes eleitos, menos influência nas decisões estratégicas e menos capacidade de direcionar investimentos. Isso não fica na teoria. Isso chega na prática, na sua vida. Chega na estrada que não sai, na obra que não vem, no recurso que demora, na pauta que não avança, isso porque política, no fim das contas, é disputa por prioridade. E prioridade não é dada. É conquistada com deputados eleitos, o que se traduz em força.

Agora vem a parte mais desconfortável de todas: isso não acontece por acaso. Isso é comportamento aprendido e incentivado. A gente foi, ao longo dos anos, sendo treinado. Treinado a reagir mais do que refletir, a consumir mais do que analisar, a valorizar presença em vez de consistência. O problema é que a democracia não funciona nesse ritmo. Democracia exige escolha. E escolha exige critério. Mas critério não nasce no feed. Nasce na pausa, na comparação, no esforço de entender quem, de fato, trajetória, compromisso e capacidade de representar a região.  E é aí que a metáfora volta a fazer sentido. O cachorro caramelo continua na rua. Querido por todos. Mas escolhido por ninguém. E quando a política passa a funcionar assim, o preço não aparece na tela. Aparece na realidade.

A Serra não é pequena. Não é fraca. Não é irrelevante. Mas continuam te dizendo que ela é, e ela continua se comportando como se fosse. É o jornalista que crava que a região “não pode” eleger deputados federais (ignorando a matemática e a realidade), é o vereador ou político da sua cidade que pede pra você votar no deputado de fora que prometeu cem ou duzentos mil reais em emendas, e com isso troca o potencial investimento de um deputado federal local, que pode conseguir até 60 milhões pra região, pelos duzentos mil que ninguém nunca vai saber para onde foram. 

No fim das contas, a conta é essa: enquanto você, eleitor, continuar aceitando isso e votando em candidatos de fora, todos os candidatos de fora vão continuar tratando a Serra como seu cachorro caramelo. Todo mundo gosta, todo mundo visita perto das eleições, mas ninguém leva pra casa. 

Enquanto você votar por curtida e por quem aparece nas redes, você deixa de prestar atenção e eleger quem, de fato, pode representar a região. A Serra não é fraca politicamente, mas tem sido treinada há anos para se comportar como se fosse. É hora de parar de tratar política como quem dá carinho em cachorro na rua e começar a tratar como aquilo que ela realmente é: uma decisão que define quem fala por você quando você não está na sala. Porque alguém sempre está na sala. A pergunta é: quem?


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