Ele era apenas um adolescente africano vivendo numa vila pobre do Senegal quando fugiu de casa para fazer um teste futebol na capital Dakar, distante 400 quilômetros. Sadio Mané precisou de toda coragem para superar sua condição humilde e enfrentar o que vinha pela frente.
Nas palavras do jogador “Tinham 200 ou 300 meninos que estavam esperando na fila por uma chance. Começou ruim para mim porque, quando me apresentei, todos riram. Eu não parecia um jogador de futebol. Estava vestindo calças que não pareciam em nada com calções de futebol. E minhas chuteiras estavam completamente rasgadas dos lados. Tentei consertá-las com fios da melhor forma que consegui.”
Dois anos no clube de base Generation Foot e Mané estreou como profissional no Metz, da França. Depois jogou no Red Bull Salzburg, da Áustria, no Southampton e no Liverpool da Inglaterra e também no Bayern de Munique, da Alemanha. Ajudou todos esses times na conquista de campeonatos locais e mundiais. Atualmente joga no Al-Nassr, da Arábia Saudita.
Com um patrimônio de R$ 630 milhões, imagina-se que o jogador possua mansões, carros caros, iates, joias, ou seja, tudo que outros atletas ricos e famosos ostentam. Perguntado sobre o assunto, respondeu: “Por que eu teria 10 Ferraris, 20 relógios de diamante, ou dois aviões? O que faria isto pelo mundo? Eu passei fome, trabalhei no campo e não fui ao colégio. Hoje posso ajudar as pessoas. Sobrevivi tempos difíceis. Com o que ganho no futebol, posso ajudar meu povo.”
E assim aconteceu: Mané construiu um hospital com maternidade, escolas – entre elas, uma de ensino médio com laptops para todos os alunos, um estádio de futebol em sua cidade natal. Ele fortaleceu a economia local oferecendo 70 euros mensais para cada família e ajudou a levar internet 4G para toda a região, melhorando o acesso à comunicação e à informação.
Aos 34 anos, considerado a maior referência do futebol de seu país, Mané se despediu da seleção senegalesa, depois de participar das oitavas de final da Copa do Mundo da Fifa 2026. Depois de se tonar o maior artilheiro da seleção de Senegal, Mané diz que jogar pelo país é o maior orgulho que um jogador pode sentir. Na despedida, dirigiu-se a seu povo: “Saibam que sacrifiquei tudo por esta nação. Dei o meu melhor e sempre lutei ferozmente pelo nosso país. O vosso apoio constante foi o motor do meu sucesso.”
O menino que chegou à adolescência jogando bola descalço e não pôde ir à escola, transformou isso em ensinamento, fez enxergar a riqueza de forma diferente. Mostrou valores humanos bem diferentes daqueles que vivem somente de imagem, dos que usam poder financeiro, político e religioso para empobrecer seus conterrâneos, daqueles que ameaçam com perseguições sua própria gente...
Mané mostra que o valor das pessoas não está no que elas ostentam, mas sim no que elas significam na vida dos outros. Para além das glórias e troféus, mostra que a verdadeira ostentação está em um lugar que para muitos é difícil vislumbrar. É valorizar sua terra e sua gente além dos discursos e ajudá-las na necessidade. Não é por acaso que Sadio Mané seja considerado herói no Senegal.
Seus investimentos trouxeram para a pequena vila estruturas e progresso antes inalcançáveis aos seus habitantes. Se os campeões da Copa 2026 são os espanhóis; também Mané é uma campeão por conseguir, em menos de duas décadas, mudar para melhor a vida de sua aldeia – Bambali; hoje uma cidade com mais de 21 mil habitantes. São eles agora os vencedores.
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