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Os caminhos da Serra até Brasília

Em Lages e na Serra Catarinense, começa a circular uma narrativa aparentemente simples: para deputado federal, haveria apenas um candidato viável. A frase costuma vir embalada em tom de certeza, como se a eleição já estivesse meio resolvida antes mesmo de começar. No centro dessa narrativa está o nome de Raimundo Colombo, apresentado por alguns como o único capaz de representar a região na Câmara Federal. A frase é forte, sedutora, mas ao ser submetida ao teste da regra eleitoral, não se sustenta.

Não se discute aqui a trajetória de Colombo. Ex-governador, ex-senador, ex-prefeito de Lages e figura conhecida no Estado, carrega memória política, reconhecimento público e história. Isso tem peso. Porém, eleição para deputado federal não é eleição majoritária. Não vence simplesmente quem tem mais lembrança, mais passado, mais conversa de bastidor e nem quem tem mais voto. A Câmara dos Deputados é escolhida pelo sistema proporcional, e isso muda tudo. Na eleição proporcional, o candidato não caminha sozinho. Ele caminha por uma estrada construída pelo partido.

O eleitor até digita o número do candidato na urna, mas a primeira grande conta é da legenda. Antes de saber qual candidato entra, o TSE define quantas cadeiras o partido terá direito a ocupar. O Tribunal Superior Eleitoral explica que o quociente eleitoral é calculado pela divisão dos votos válidos pelo número de vagas em disputa e serve para definir quais partidos poderão ocupar cadeiras nas eleições proporcionais. Depois vem o quociente partidário, que mede quantas vagas cada partido conquista a partir da soma dos votos recebidos por seus candidatos e pela legenda.

Traduzindo para o português da rua: deputado federal não se elege como prefeito. Não basta ser o mais conhecido da conversa. O partido precisa fazer votos. A chapa precisa somar. A legenda precisa atravessar a nota de corte. Depois disso, os candidatos mais votados dentro daquela sigla disputam as cadeiras conquistadas pelo partido, respeitadas as regras de desempenho individual. Nas sobras, por exemplo, o TSE registra que o partido precisa alcançar pelo menos 80% do quociente eleitoral, e o candidato precisa ter votação igual ou superior a 20% desse quociente para ocupar a vaga. É aqui que a narrativa do “único nome com chance” deixa de se sustentar.

A pergunta certa não é quantos votos Colombo pode fazer? A pergunta é: por qual partido ele disputará, qual será a força real dessa nominata e quantas cadeiras a chapa terá capacidade de produzir?

Esse é o funil do PSD. Colombo, se confirmada sua candidatura, terá uma batalha de duas frentes. Primeiro, precisará ajudar a carregar a votação global do partido, que até o momento, não apresentou uma chapa robusta. Isso significa que sua votação individual, por maior que seja, só terá efeito prático se o conjunto da chapa alcançar força suficiente para conquistar cadeira. Um candidato pode ter votação expressiva e, ainda assim, ficar fora se o partido não performar na proporção necessária. Parece estranho? Parece. Mas acontece.

Santa Catarina já deu uma aula prática sobre isso em 2022. Bruno Souza fez 86.568 votos para deputado federal e ficou na suplência pelo Novo, enquanto Rafael Pezenti foi eleito pelo MDB com 68.208 votos, e Fábio Schiochet entrou pelo União Brasil com 51.824. Darci de Matos, ex-deputado federal e liderança tradicional de Joinville, também ficou na suplência pelo PSD com 57.565 votos, mais do que Schiochet. Isso não é erro da urna, injustiça divina ou conspiração partidária. É o sistema proporcional funcionando como ele é: primeiro a chapa abre a porta; depois o candidato vê se está na posição certa para atravessá-la e disputa a cadeira.

Por isso, o caminho de Colombo não depende apenas do tamanho de sua biografia. Depende da capacidade do PSD de montar uma chapa competitiva, somar votos no Estado inteiro e garantir espaço na distribuição das vagas. E, mesmo que essa primeira barreira seja vencida, vem a segunda: a disputa interna. Dentro do próprio PSD, há nomes com mandato, estrutura, musculatura e peso institucional. Júlio Garcia, por exemplo, é presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina no biênio 2025-2026, exerce seu sétimo mandato estadual e já presidiu o Parlamento catarinense em outras oportunidades.

Ou seja: mesmo que Colombo consiga boa votação, ele não disputará contra o vazio. Disputará contra a matemática do partido e contra nomes fortes dentro da própria sigla. Esse é o paradoxo do puxador único. A narrativa vende a imagem da locomotiva, mas no sistema proporcional, locomotiva sem vagões suficientes não chega ao destino. E quando há outros vagões pesados na mesma composição, a disputa pela primeira cadeira pode ser muito mais dura do que o discurso de corredor admite.

Do outro lado, há um caminho com lógica diferente. Uma candidatura da Serra colocada dentro de uma legenda com chapa mais robusta, maior capacidade de soma e ambiente político mais favorável não precisa carregar sozinha o peso da estrada. Ela entra numa esteira partidária. É aí que o cenário de Fernanda Córdova muda de natureza.

No PL, Fernanda não precisará provar que consegue sozinha empurrar a legenda até o quociente. O desafio dela será outro: consolidar o voto regional, fazer o dever de casa na Serra e ampliar presença fora da base natural para alcançar a votação individual necessária para entrar na disputa interna de uma chapa com potencial de conquistar várias cadeiras. O PL catarinense saiu das eleições de 2022 com seis deputados federais eleitos e tem projeção interna de conquistar 7 ou 8 em 2026. Essa é a diferença entre funil e rodovia.

No funil, o candidato depende de uma votação individual muito alta, de uma chapa que talvez não ajude o suficiente e ainda precisa sobreviver à guerra interna contra nomes pesados, caso de Colombo. Na rodovia, o candidato regional precisa ser competitivo dentro de uma estrutura maior, onde a soma do partido tende a abrir mais portas e a nota interna pode se tornar mais acessível para quem fizer bem o trabalho territorial.

Isso não significa eleição garantida, nem vida fácil para ninguém. Política não é cartomancia, mas o sistema proporcional equilibra as coisas. Chapa que parecia forte pode decepcionar e candidatura subestimada pode surpreender. Quem promete eleição antecipada está vendendo perfume em dia de tempestade, mas análise política séria não trabalha com torcida. Trabalha com probabilidade, regra, cenário e estrutura.

A narrativa que “só um candidato tem chance” é mais emocional do que técnica. Ela olha para a eleição de deputado federal com cabeça de eleição para prefeito ou governador. Enxerga o nome, o passado, a lembrança, o carisma, a história, mas ignora que, na eleição proporcional, o voto individual entra numa engrenagem maior e que a urna da Câmara não premia saudade, premia combinação eleitoral.

A Serra precisa olhar para isso com maturidade se não quiser ficar sem representação federal. A região tem eleitor e densidade eleitoral até para eleger os dois candidatos. Quem diz o contrário subestima a própria Serra. O problema é que não adianta ter votos espalhados se eles não viram cadeira, e não adianta repetir que alguém “tem chance” sem perguntar chance dentro de qual partido, contra quem, com qual nominata e em qual cálculo.

O caminho dos postulantes a deputado até Brasília não é uma linha reta desenhada pela fama ou pela biografia. É uma estrada construída por uma combinação de chapa, legenda, soma, desempenho individual e posição interna. Alguns caminhos parecem largos na largada porque têm placas conhecidas. Outros parecem mais discretos, mas têm pavimento melhor, tráfego organizado e mais chances reais de chegada.

Colombo tem história. Isso é fato. Mas história não substitui quociente, recall não substitui chapa e passado não garante cadeira. Política proporcional não se resolve no grito de quem tenta convencer a região de que só existe um caminho.

Fernanda, por sua vez, pode ter um percurso menos barulhento e uma largada mais modesta, mas estruturalmente mais viável estando numa legenda capaz de transformar soma partidária em cadeiras. O dever dela será fazer votos onde precisa fazer, consolidar a Serra como base, atravessar a cláusula individual e ficar bem posicionada na lista interna. Não é simples. Mas é viável. E, em política proporcional, viabilidade organizada vale muito mais do que grandeza solitária.

No fim, a pergunta que a Serra deve fazer não é quem tem mais passado ou quem é mais conhecido. É quem tem o caminho mais viável até a Câmara Federal, porque, na eleição proporcional, a emoção pode até apertar o botão, mas é a matemática que garante o assento em Brasília.

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