Hoje eu tive um sonho. Quando acordei parecia que não era um sonho e sim uma lembrança. Isso me acontece às vezes, acordar meio perdido. Principalmente quando estou viajando e, como estou em Porto Alegre essa semana, logo atribuí a sensação ao local.
Mas vamos ao sonho. Sonhei que tinha assistido à última sessão da câmara de vereadores, algo que eu não fazia havia muito tempo. Na sessão eram vistas tantas coisas insólitas, que só podiam ser mesmo um sonho.
Numa passagem era debatido o porquê do fechamento da empresa de transporte público em que eu tinha trabalhado quando criança. A empresa teria fechado as portas sem nunca conversar com o poder público. Sem nunca ter pedido uma licitação para que pudesse transportar pessoas idosas, deficientes e outros que têm a gratuidade do transporte público garantida. E assim, eles haviam sido pegos de surpresa com a notícia.
Numa outra passagem falava-se sobre a violência contra a mulher – o que é uma mancha nacional – mas não se discutia causas como a falta de escolaridade e consequente dependência financeira. Ou, no mínimo, porque temos tão poucas mulheres na política. Elas são 18% no congresso nacional, perto disso no estadual e incrivelmente perto disso em nossa câmara também.
Noutra, um vereador comentava que pena tinha sido o curto mandato de cinco dias como prefeito do outro, pois no período todos os funcionários estavam de férias. Mas outro apoiava dizendo que muito foi feito e houve até contribuições on-line.
Falava-se muito sobre verbas e necessidade de verbas, associadas ao fato de como os vereadores são leigos para realizar o seu trabalho de fiscalizar as contas públicas. Ao acordar – não perca o foco querido leitor, o autor ainda estava dormindo – pensei: “Como assim é leigo? O sujeito foi eleito para fiscalizar e controlar as contas públicas da prefeitura. Foi eleito para legislar. Não se pode alegar que não se sabe fazer algo, depois de ter sido eleito dizendo que sabia fazer aquele algo”.
O sonho parecia tão real, que lembrei uma cena em que foi aprovada uma lei para priorizar o atendimento de diabéticos. Algo que o Senador Jorge Kajuru, sem sucesso, tenta aprovar desde 2021. Mas o SUS já não prioriza urgência e emergência? Risco imediato? E outras condições que não toleram espera prolongada? Além, é claro, de pessoas portadoras de deficiência física, de idosos, de gestantes, de lactantes e das pessoas acompanhadas por crianças de colo?
Foi quando acordei de vez! Afinal, se muita coisa é prioridade, nada é prioridade. Será mesmo que ninguém se pergunta o porquê de haver filas? Leis de prioridade não criam médicos, filas menores ou mais equipamentos. Apenas transferem o tempo de espera de um grupo para outro. Ou por acaso alguém está numa fila do SUS porque não tem coisa melhor a fazer?
O caso é que, na vida real, nenhum político quer fazer essas perguntas. Eles querem acreditar que empresas fecham porque não lhes pediram ajuda. Que mulheres apanham porque não há leis que as protejam. Que feliz será o dia em que um ex-vereador for prefeito. Que vão se eleger novamente prometendo e alardeando verbas e não fiscalizando e legislando. Gestão e eficiência? Não, acreditam que há filas no SUS porque faltam leis.
Ainda bem que foi só um sonho. Caso contrário, teria pensado que era falta de sensibilidade minha.
“Se muita coisa é prioridade, nada é prioridade.” |
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