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Quinze anos nadando contra a corrente

Vivemos a era do dedo nervoso. O polegar desliza, o cérebro salta, a atenção evapora. Antes mesmo de terminar uma frase, já estamos em outra imagem, outro vídeo, outro escândalo, quase sempre raso, quase sempre exagerado, quase sempre desenhado para nos manter viciados.

As redes sociais transformaram a informação em estímulo. Não importa mais o que é verdadeiro, importa o que engaja. Não importa o que é relevante, importa o que provoca reação. A lógica do algoritmo não é formar cidadãos; é prender olhares e gerar bolhas. E, nesse processo, o cérebro vai apodrecendo aos poucos, treinado para a superficialidade, para a indignação instantânea, para a certeza sem reflexão. Já foi, inclusive, criado um termo em inglês para isso: brainrot.

Nesse cenário, fazer jornalismo é quase um ato de resistência. Enquanto influenciadores e “influenciadores” disputam curtidas como quem disputa oxigênio, veículos de imprensa sérios seguem fazendo o trabalho menos glamouroso e mais necessário: apurar fatos, ouvir versões, checar informações, respeitar o leitor. Não dá view fácil, não viraliza rápido, precisa respeitar leis e regramentos cada vez mais ridículos, mas sustenta algo que anda em falta: confiança.

É por isso que, quando um jornal completa 15 anos, não é pouca coisa. É muita coisa.
O Correio Otaciliense chega aos seus 15 anos num tempo em que informar virou sinônimo de gritar mais alto. E talvez por isso sua existência seja ainda mais relevante. Porque escolher o caminho da responsabilidade editorial, da apuração cuidadosa e do compromisso com a verdade nunca foi o caminho mais curto, mas sempre foi o mais correto.

Num mundo em que qualquer opinião vira “notícia” e qualquer boato ganha status de fato em perfis de gente irresponsável, o jornal local cumpre um papel que nenhuma rede social substitui: ele organiza, recorta e registra a realidade da cidade. Dá contexto. Dá memória. Dá continuidade. Não vive apenas do agora, constrói história.

E isso importa. Importa para a democracia local, importa para o debate público, importa para a formação de opinião. Uma cidade sem imprensa forte vira refém do diz-que-diz, do grupo de WhatsApp, do corte fora de contexto e vira terreno fértil para desinformação e manipulação.

Celebrar os 15 anos do Correio Otaciliense é, portanto, mais do que cantar parabéns a um veículo. É reconhecer que ainda existem ilhas de sanidade num mar de estímulos rasos e irresponsabilidade generalizada. Que ainda há quem trate o leitor como alguém capaz de pensar, e não apenas como um robô de reação.

Em tempos de cérebro sequestrado pelo algoritmo, o jornalismo bem feito é quase terapêutico. Ele desacelera, aprofunda, explica. Ele não compete com o barulho; oferece sentido.

Que venham muitos outros anos. Porque enquanto houver quem confunda engajamento com verdade, será indispensável quem continue fazendo jornalismo de verdade. E isso, convenhamos, não se mede em curtidas.

Obrigado Correio Otaciliense e que venham mais 15 anos! Anterior

Obrigado Correio Otaciliense e que venham mais 15 anos!

Administração Municipal presta homenagem ao Jornal Correio Otaciliense pelos 15 anos de história Próximo

Administração Municipal presta homenagem ao Jornal Correio Otaciliense pelos 15 anos de história

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